quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

 

Alice se despede


   Cento e cinquenta e cinco verões se passaram no jardim de Woolsthorpe desde que Alice deixou cair sua maçã. Sob os seus galhos, muitas gerações de crianças brincaram, cresceram e tiveram seus filhos. 

    Alice talvez tenha se perguntado se uma das suas sementes encontrou um lugar adequado para deitar raízes e crescer. A única coisa de que podia ter certeza era que, se as suas não vingaram, outras o fizeram, e desse modo o ciclo natural continuaria. Há alguns anos, a casca de Alice começou a endurecer e uma doença causada pela umidade infestou a parte interna do seu casco. Alice sabia que era hora de se despedir, e assim, certa manhã de outono, ela teve uma vaga consciência do talho regular de um machado em sua base. Não sentiu dor nem tristeza: tinha feito tudo o que se esperara dela. 

    Muito mais, até. 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Índias peladas e marujos afoitos?

 



    Mordido por uma curiosidade irresistível decidi, depois de só indiretamente conhecer o seu conteúdo durante as aulas do ensino fundamental, ler a Carta de Pero Vaz de Caminha. Surpreendi-me tocado, emocionado com a narrativa. Para mim, enquanto leitor, Caminha apresentou-se muito diferente daquele fidalgo arrogante e malicioso cuja imagem deve-se à sanha brega dos justiceiros sociais. Coisa brega. Coisa ridícula. O leitor que se contenta somente com a leitura indireta, com a experiência secundária da realidade, jamais terá acesso a todas as possibilidades de percepção que a sua própria experiência oferece. 

    Eu sou católico, sei o que é necessário para comungar, para participar da partilha do Corpo de Christo na missa. Durante a curta estadia daquele primeiro grupo de heróis portugueses na Terra de Vera Cruz, segundo Caminha, celebrou-se missa; era tempo de Páscoa. No Dia do Senhor de 26 de abril de 1500, Frei Henrique de Coimbra, com "voz entoada", cumpriu o rito latino e, depois da celebração, "desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho (...)". Caminha conta que, terminada a exposição sobre o Evangelho, Frei Henrique falou sobre a viagem, sobre o propósito primeiro desta expedição que levara homens piedosos para tão longe de casa. 

    Sim, piedosos. É verdade que a quase totalidade dos discursos proferidos na mídia, nas universidades, pelas classes "artísticas" e formadoras de opinião, não admite que uma coisa denominada pelos católicos de "estado de graça" exista. É puro fanatismo religioso que deveria ter sido extirpado da face da Terra quando da Revolução que, aliás, fora celebrada ontem, 14 de julho. A narrativa de Caminha fala de esperança. Plenamente consciente da missão que o imperativo "ide e pregai o Evangelho a todas as criaturas" implica, o nosso primeiro escritor legou, nesta sua pequena obra de sete páginas endereçada a El-Rei Dom Manuel, a imagem do Brasil tal qual idealizado pela própria Vontade Divina. 

terça-feira, 9 de março de 2021

O que é um Santo?




    Depois de muito esperar na fila de leituras, eis que é chegado o momento de lê-la. A biografia Padre Pio, A História Definitiva, escrita pelo C. Bernard Ruffin, da Minha Biblioteca Católica, chegou há meses. Lembro bem da surpresa daquele dia: o carteiro trouxera duas caixas com os emblemas da MBC. A pulga atrás da orelha não só dançou, mas pulou carnaval, na mais soberba das folias. Como pode? Eu paguei por um kit e, no entanto, chegam-me dois! Corri para o computador e enviei um e-mail relatando o possível engano da equipe responsável pelos envios mensais dos livros aos assinantes. "Vitor, considere o livro excedente como um brinde do nosso Clube de Leitura!", fora a resposta da prestimosa equipe. Pois bem, sou um felizardo, pois tenho dois exemplares da mais completa biografia do maior Santo que viveu no século XX! Talvez eu dê o outro de presente para alguém, estou prospectando dentre os conhecidos, de longe e de perto, virtuais ou pessoais, alguém digno de receber esse tesouro. Quem será? Há uma amiga virtual residente na longínqua Cascavel do Paraná, talvez o carteiro despache alegria em sua casa também. 

    Decidi escrever algumas poucas palavras sobre o meu entendimento da realidade da Santidade depois que, durante a leitura, pude observar, quase como uma testemunha, a coleção deífica das ações cotidianas do Pe. Pio. Um Santo, mes amis, é alguém que esteve tão próximo de Jesus Christo a ponto de se transformar em um verdadeiro e cativante exemplo de como segui-Lo, imita-Lo e obedecê-Lo. Esse tipo humano especial, pelo testemunho de sua vida de consagração e entrega, parece mesmo dotado de um amor extraordinário por Jesus; um amor que não poderia tomar forma sem uma intervenção divina. Francesco Forgione, o Pe. Pio de Pietrelcina, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, foi um, mutatis mutandis, exemplo perfeito de Santidade. Na história das personalidades humanas, observamos, maravilhados, que há aqueles que nascem com o talento extraordinário para as habilidades matemáticas, como Newton ou Feynman; outros, porém, como prodígios musicais admiráveis, como Bach ou Mozart; e ainda outros nascem com o talento incomum para a arte da Literatura, como Machado ou Dostoiévski. Contudo, há um outro tipo de disposição manifesta em alguns indivíduos que os arrebata, literalmente, do ordinário: a Santidade. Pe. Pio fora um desses iluminados pela chama do amor desmedido a Deus que o levou a, heroicamente, aprender a submeter suas paixões à vontade do Criador. E, assim como os talentos mundanos precisam ser lapidados e aprimorados, como um diamante, assim também a Santidade demanda o esforço individual para crescer. 

    Entretanto, diferentemente dos talentos comuns, isto é, daqueles que expandem o horizonte de percepção do indivíduo somente para as coisas mundanas, apontando só timidamente para a existência de uma realidade muito para além do mensurável, a Santidade é um talento que se distribui de forma igualitária. Os outros, não. Um sujeito pode ser bom em matemática, um outro, em música, mas esses talentos limitam-se ao domínio de recortes da realidade. Ademais, limitam-se também às potências intelectivas dos indivíduos. A Santidade, por sua vez, expressa o vocativo universal: a conformidade da alma em Christo; a participação definitiva no Ser. Desse chamado [vocare] ninguém pode escapar -- pelo menos de ouvir. Os Santos, através da coparticipação com a Graça Divina, manifestaram uma firme resolução de dedicar suas vidas nesse mundo àquilo que verdadeiramente importa: ir a Christo e nEle permanecer. Nas suas ações cotidianas, Pe. Pio deixava-se guiar unicamente por esse propósito, tudo o mais em sua vida era contingente. Há aqueles que, conscientes do chamado à Santidade, caem tristes, porque sempre e sempre sucumbem às tentações. Numa carta a um Padre amigo, datada de março de 1918, Pe. Pio diz: "(...) Caminhe alegremente com um coração aberto e sincero na medida do possível. Se não puder manter essa santa alegria, ao menos nunca perca a coragem e a confiança em Deus. Diga frequentemente a Nosso Senhor, junto ao Santo Rei Davi: 'Sou teu, salva-me' (Sl. 118,94), e, como Maria Magdalena, em pé diante dEle: 'Rabi, meu Mestre!' (Jo. 20,16). Então deixe tudo em suas mãos. Com você, dentro de você, ao redor de você, e mesmo através de você, Ele santificará Seu nome, ao qual deve ser dado honra e glória eterna. Nada tema... e não tema nada que possa separá-lo de Deus. Não desfaleça por causa da escuridão em que seu espírito se encontra na maior parte do tempo. Lembre-se que Jesus está sempre muito próximo, não importa qual seja o estado da sua alma". 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Sob a máscara -- Crônica.

 

    
    Cheguei à estação, comprei o bilhete, venci a catraca, subi e desci dois lances de escadas e tomei o meu lugar na plataforma. Não houve demora. Num movimento rápido de cabeça, vejo chegar o comboio vermelho da CPTM. Só não entrei rapidamente, como faria por instinto, porque cedi espaço a uma senhora que se avizinhou de mim no momento exato em que o trem abria suas portas. "Opá!, pode passar, senhora!". Como fosse uma tarde de domingo, não houve concorrência para tomar os assentos. Sentei-me desconfortavelmente num daqueles bancos ordinários da Companhia Paulista, mas, repare, não digo isso pelo puro prazer da queixa, como as pessoas fazem comumente, é que tenho proporções físicas incomuns -- se minha patela falasse, não haveria dicionarista capaz de catalogar-lhe os impropérios. Depois de desviar a mente dessa pequena injustiça dominical, olhei através da janela (permanentemente hermética) e passei a contemplar o pôr-do-sol. Seguia do subúrbio para o centro, nesse domingo eu iria comungar na Sé. 

    Passaram-se duas estações até que uma moça bonita veio sentar-se ao meu lado: tinha olhos verdes-mel-com-limão, cabelos castanho-claros e um longo pescoço; usava uma camisa social e uma calça preta de tecido leve. Estava, portanto, decentemente vestida para o meu crivo de modéstia, mais hesitante do que exigente. Talvez por ser dia santo e eu estar a caminho de cumprir o preceito, tentei ignorá-la instintivamente, como se tivesse receio de ter de acrescentar mais uma violação ao IX Mandamento. Distraí-me com as publicações da minha rede social, especialmente com uma que ironizava a implicância que algumas pessoas fazem àquelas que vivem com a cara pregada na tela do celular: uma foto tirada do interior de um bonde na São Paulo dos anos 1920 mostrava todos os passageiros com a cara pregada no... jornal! A diferença está no fato de que os celulares são mais práticos, porque são compactos, não preenchem todo o espaço à frente do leitor como as imensas folhas brancas dos jornais de outrora que, além de incomodarem pelo tamanho, irritavam também pelo farfalhar das páginas quando viradas. Pois bem, a moça ao meu lado não estava olhando para o celular, ela tinha mais interesse no pôr-do-sol através da minha janela. 

    No ônibus, no trem ou no metrô é mais fácil observar com naturalidade as moças que estão ligeiramente distantes porque, se os olhares se entrecruzarem, basta um desvio rápido para um ponto qualquer, menos interessante e perigoso. E quando, por fatalidade, acontece um encontro de olhares, um estranho e visceral reflexo de afastamento é desencadeado, como quando o sujeito aproxima o dedo da chama de uma vela ou quando, por puro divertimento, acende um palito de fósforo e espera que as chamas consumam toda a extensão da pequena peça de madeira, até fazer cócegas nos dedos. Dor e constrangimento. Penso que se um estrangeiro, olheiro de alguma agência de moda, viesse à Pindorama com o propósito de aliciar as beldades do seu gosto, ele não teria grande dificuldade em encontrá-las: bastaria se locomover de condução. Numa simples e rápida viagem até o centro da cidade, o passageiro tem uma mostra de praticamente todos os tipos e biótipos característicos da sociedade. Eu tinha certeza de que a moça ao meu lado era uma dessas beldades, mas eu não me atreveria a olhá-la mais, era impossível. 

    Seguimos, então, sentados lado a lado, em nossa peregrinação do subúrbio para o centro. Os passageiros que nos faziam companhia estavam todos perscrutando as telas dos seus celulares, exceto a senhora que recebera minha gentileza ao embarcar, a idosa mantinha os olhos em qualquer ponto vago do piso do trem à sua volta, ou em qualquer movimento interessante que surgia através da janela. Pude observar que trazia um rosário em torno do pulso, talvez estivesse a caminho da missa também. Antes de chegarmos à estação Barra Funda, que, com o perdão do trocadilho tão fácil, deixa de ser uma barafunda aos domingos, ouço um abafado "moço, por favor, que horas são?" em voz de mulher. Era ela, a donzela ao meu lado desejava saber a quantas andava o deus Hélio através do seu percurso pela abóbada celeste. Ele ia adiantado, pois já era quase noite. Sua pergunta me causou estranheza, ela quebrou a atmosfera de silêncio do ambiente, eu esperava ver o seu rosto, mas não ouvir a sua voz. "Quinze para as sete", respondi sorrindo. A moça não carregava um celular. Tão estranho quanto ouvir sua pergunta e me ver, assim, transformado num participante indireto das suas cogitações, foi perceber que a moça não pôde ver meu sorriso quando respondi. De alguma forma imprecisa, isso me perturbou. Três minutos depois, chegávamos à estação Barra Funda. "(...) Ao desembarcar, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma". Levantamos, demos alguns passos; abriu-se a porta, desembarcamos. Ela ia à minha frente. Antes de subirmos as escadas, porém, eu parei, tive um pensamento súbito, do tipo mesmo que faz um homem parar, estancar: "Ela não me viu sorrir", pensei, em devaneio, "mas... também não a vi sorrir, não sei... talvez ela tenha sorrido quando respondi". 

    Acho que permaneci nesse estado de devaneio por um longo tempo, porque, próximo a mim, encostada na amurada da estação, aquela senhora que se beneficiara de minha gentileza quando de seu embarque, há meia hora atrás, me olhava com curiosidade e algo mais. Notei que a região em torno dos seus olhos franzia-se ligeiramente, assim como sua testa; e suas orelhas faziam um movimento engraçado, assim como seu abdomen. A velha não estava rindo, mas gargalhando de mim, divertindo-se soberbamente com a minha situação. Dei de ombros. Não tinha como saber com certeza, todos nós usávamos máscaras. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Por que você escreve?

 


    É fácil encontrar e, como diria minha avó, se aprochegar de quem nutre os mesmos gostos que você. Hoje, com a onipresença da internet na vida cotidiana, estabelecer contato e quiçá amizade com quem partilha das mesmas preferências que você é uma vantagem civilizacional tremenda. Se nós, humildes e ingênuos usuários da rede mundial de computadores, faremos uso deste meio por muito mais tempo, é uma questão que não cabe aqui. Vamos levando a vida dentro dos exatos limites das possibilidades como, aliás, sempre fizemos -- conformados ou a contragosto. Assim, no meu simples cotidiano de estudante autodidata, leitor e acumulador voraz de livros, facilmente descubro novos colegas amantes de literatura. Eles escrevem, mantêm blogs, sites, revistas eletrônicas, redes sociais, etc., no entanto, para meu desgosto -- porque gosto de conservar aquilo que amo --, raramente escrevem bem. Geralmente, esses bibliófilos das internets só estão preocupados mesmo com a exibição das suas estantes apinhadas de livros (nunca lidos) nas redes sociais. Quando falo em escrever bem, quero dizer simplesmente que eles não têm a genuína preocupação em exprimir, da melhor forma possível, suas experiências com a realidade; não sentem o peso da necessidade de dizer, de dar uma forma verbal às suas experiências reais. Para estes, a literatura não passa de um passatempo, uma diversão frugal que exige algum esforço da mente, mas que, no final, não tem valor substantivo para a vida, como o jogo de xadrez. 

    Escrever, como incansavelmente ensinam os grandes mestres, exige não só disciplina, mas coragem também; exige que o escritor não se permita ser dominado pelo arrefecimento do espírito, pela acídia que leva à mediocridade, à superficialidade, à prostituição da consciência, à conformidade com as narrativas ideológicas deste ou daquele grupinho. É curioso notar como as pessoas estão cada vez mais institucionalizadas hoje em dia: para empreender uma investigação, seja no âmbito intelectual, como nas ciências humanas e exatas, seja no âmbito prático, como nas matérias jornalísticas, só tem valor objetivo para o grande público os trabalhos realizados por quem tenha diploma referendado por tal ou qual instituição. O simples esforço individual da inteligência para entender a realidade não vale se não estiver sob as diretrizes de alguma instituição que forneça, mediante o diploma, o crivo através do qual se possa analisar todas as coisas. Pergunta-se: Machado de Assis tinha diploma universitário? William Faulkner gradou-se em qual universidade? Ray Bradbury exibia aos amigos suas fotos usando beca, faixa e capelo? Charles Dickens mantinha uma moldura em cima da lareira ostentando o seu título de Doutor? Lima Barreto fora renomado Bacharel? Quando a sociedade passa a superestimar os títulos, os diplomas, as cartas de comprovação da passagem pelo campus universitário ao invés de reconhecer o real valor do trabalho intelectual genuíno, vocacionado, desinteressado, toma como verdade universal a visão da realidade sepultada pela atmosfera da burocracia institucional. "Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?". As implicações disto são tenebrosas, não? 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Falai palavrões!

 


    É necessário, às vezes, ser rude, no sentido mesmo de ríspido, no entanto, essa necessidade quase cotidiana só existe para um tipo especial de pessoa que, mui desgraçadamente, está cada vez mais abundante no mundo: o idiota. O idiota é aquele sujeito cuja energia máxima da existência é empregada unicamente em vislumbrar o seu próprio umbigo, limpá-lo com aqueles protetores auriculares -- que para ele deveriam ser umbigulares -- embebidos em substância higiênica, lustrá-lo, enfiar-lhe o dedo indicador até que a articulação distal desapareça no tecido adiposo do abdomen. Eliminar as crostas negras de sujeira acumuladas nessa icônica região anatômica é, portanto, a única atividade digna de concentrar toda a atenção verdadeira do idiota contumaz. Nenhum pingo de energia para a prática do amor ao próximo, nenhum interesse em fazer o bem para quem quer que seja, nenhum reflexo de atenção verdadeira para com o outro. Nada. Todo o universo está, para o idiota, circunscrito pelos limites anatômicos do seu fabuloso umbigo. "Oh, Umbigo divino! Oh, Umbigo ditoso! Oh, Umbigo perfeito! Tu és o centro de todo o universo! Para Ti convergem todas as massas, Tu as atrai todas para Si e nem aqueles que cavalgam os raios de luz, a 299.792.458 m/s podem escapar-Te a atração. Tu és incomparável, oh, Umbigo deífico!". O idiota, quando medita sobre os mistérios da vida, tem pensamentos desta natureza. 

    Daí que toda sorte de palavras malcriadas, de vocábulos torpes, imorais, vulgares, diabolicamente articulados em explosões de perdigotos, lhe sejam destinadas. É satisfatório. Se é belo e moral também, não me interessa, só sei, nesse momento, que é satisfatório, sumamente satisfatório. É como ter o vigor físico para dominar, sozinho, uma mangueira de bombeiro cujo hidrante é o seu próprio corpo e a substância que lhe sai, descrevendo esguichos magníficos, ser suficiente para lavar, por inteiro, o Maracanã. Não só, mas a Quinta da Boa Vista também. Sim! Você seria capaz de apagar o incêndio que destruiu o palácio de São Cristóvão com a sua extraordinária mangueira! Claro, isso se tivesses a habilidade de manuseá-la com perícia. As conjecturas sobre a natureza da substância esguichada do seu próprio corpo são desnecessárias, pois já temos aqui um quadro demasiadamente burlesco. Imagine que é água, pronto, assim como a água do aqua lateris Christi, embora, como é sabido, qualquer substância viscosa, quiçá branca-amarelada, composta por enzimas, ácido cítrico e até por bichinhos microscópicos, também seja, dependendo da abundância, eficiente para apagar um incêndio -- a chama de uma vela, pelo menos. Só não tão indecente quanto quando o idiota, insatisfeito em movimentar a falange do seu indicador pelas paredes rugosas da estrutura interna do seu umbigo, o leva à língua, com o propósito de dar uma dimensão também palatável ao seu espetáculo picaresco. 

    Ah, idiota, o que faríamos sem você? Será que o mundo seria melhor se algumas pessoas subitamente decidissem parar de se meter na vida alheia? Será que a vida no planeta ou redondeta Terra -- como preferir -- seria melhor se algumas pessoas decidissem estudar antes de dar soberbamente suas opiniões? Será que haveria algum impacto positivo na vida ordinária do cotidiano se alguns bípedes passassem a usar a dupla de orifícios auriculares com maior frequência do que o grande orifício delimitado pela mucosa de tonalidade avermelhada através da qual recebem o alimento diário -- ou semanal, para as pobres vítimas de algum regime comunista por aí? Será? Eu leio a Bíblia, já a li algumas vezes e sempre, sempre a estou relendo. Há um trecho, uma passagem que, sempre que me flagro pensando na fatalidade dos idiotas, me vem à mente: é aquela na qual Nosso Senhor Jesus Christo, enrolando tiras de cordas nas mãos, desfere lambadas ardidas nos lombos dos vendilhões, dos cambistas que estavam fazendo do ambiente sagrado do templo uma verdadeira feira do rolo. O contexto, isto é, as partes que vêm antes e depois do texto aqui citado por mim, está todo lá, você pode conferir lendo o Evangelho segundo São João, capítulo II, a partir do versículo 13. Imaginar o Verbo Encarnado, furioso, esbravejando com um chicote na mão enquanto, a pontapés, virava mesas e, literalmente, chutava o pau da barraca, é maravilhoso! Os vagabundos dos marreteiros eram mesmo uns completos idiotas, porque profanaram o templo ao invés de prestarem culto ao Senhor. Parvos! 

    De que modo um idiota pode ser curado de sua idiotice? A resposta é muito complexa, porque, embasado nas minhas observações, constatei que quanto mais idiota um sujeito é, menos percebe sua idiotice. Ele, portanto, só pode ser salvo através do brilho de um centelha de inteligência que, por milagre, ainda possa bruxulear dentro de si. Um método eficiente para verificar essa possibilidade é, quando pego no flagrante de alguma de suas idiotices, gritar-se-lhe palavrões, de preferência ao pé do ouvido, de modo a provocar um despertamento no infeliz. Um choque de realidade. Agora, se os palavreados não surtirem efeito, você pode fazer como Nosso Senhor, e sentar-lhe a chibata no lombo. Mas, como aqui não quero insinuar atos de violência [física], limite-se mesmo aos justos impropérios. Talvez haja esperança para o ouvinte. Talvez. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Resenha do filme A BRUXA -- 2015 --, de Robert Eggers.

 



    Perverter a imagem de Deus, eis a mais ardilosa das artimanhas do diabo. Fazê-Lo parecer cruel em seus julgamentos e injusto em suas sentenças; mostrá-Lo desde um obscuro quadro de indiferença e frieza para com os sofrimentos humanos; transformá-Lo num juiz cruel, pervertendo assim sua intrínseca bondade, eis os intentos do adversário de todas as almas. Deus não é um pai misericordioso e amável, Ele é injusto, porque depositou sobre as costas dos homens um jugo demasiado pesado para ser suportado. Tudo o que os seus filhos podem fazer é levar a vida na incerteza da salvação das suas próprias almas desesperadas. Tal realidade é a tônica da narrativa do diretor americano Robert Eggers no seu filme A Bruxa, "The Witch", estreado em 2015. O longa-metragem traz o subtítulo de "A New England Folktale", "Um Conto Popular da Nova Inglaterra". Da velha Inglaterra vieram os "Pilgrims Fathers" trazendo nos velhos baús de madeira a Geneva Bible de William Whittingham e a esperança de conquistar a Terra Prometida, a "terra que mana leite e mel". 

    O filme de Eggers é um verdadeiro estudo psicológico em moldes estéticos da mentalidade daqueles peregrinos que sobreviveram às primeiras noites da América. Com o entusiasmo para conquistar o new world traziam também uma nova cosmovisão da realidade: a mentalidade protestante dos puritanos. Estes, que se afastaram da Igreja Católica e dos ritos pseudo católicos dos anglicanos, mantinham bem próximo de si a interpretação calvinista do mundo: a doutrina da Predestinação. Deus, em sua infinita bondade, determinou de antemão o destino de todas as almas, de modo que, como sinal de sua salvação eterna, o indivíduo recebe bênçãos em vida; e tais bênçãos vêm, quase sempre, na forma de prosperidade material através da predisposição para o trabalho diligente. As bênçãos e as maldições na vida são, portanto, manifestações claras da Graça de Deus sobre os filhos da salvação ou da danação eternas.     

    Mas e quando o trabalho, mesmo diligente, não dá resultados favoráveis? A história é centrada na narrativa da vida de uma família de puritanos imigrada da Inglaterra para a costa leste da América do Norte. Pai, mãe e filhos vivem agora como membros de uma comunidade puritana na qual os rígidos preceitos morais têm o peso da coerção da lei e a não observância do comportamento irrepreensível perante Deus e os homens é passível de excomunhão. Um dia, porém, o patriarca da família, homem de caráter questionador e rebelde, é levado a julgamento perante os legisladores da moral do povo da pequena comunidade. Por motivos de "consciência" o homem se rebela contra o status quo da administração religiosa da comunidade e, por isso, na companhia de sua família, é convidado a abandonar a vida na vila e a tomar o rumo do mundo desconhecido, para além da proteção dos muros daquela sociedade controlada e controladora. O convite é aceito "com prazer".     

    Encontraram uma região favorável, fronteiriça a uma floresta, e começaram então os esforços para o estabelecimento da nova vida. Nesse campo, a família começa a construir uma pequena fazenda e, em função da diligência no trabalho, alcançam relativa estabilidade. Cultivam uma pequena lavoura de milho, uma horta; criam animais que dão leite e chegam aos estágios finais da construção de um pequeno celeiro. A moradia principal é simples e rústica, mas, em pouco tempo, ingressam numa fase de estabilidade que, a julgar pela dedicação que todos empregam na labuta cotidiana, cada um cumprindo com as suas funções, a renda da fazenda só tende a aumentar, a expandir. No entanto, a fé da família é posta à prova quando os frutos do trabalho não mais são viçosos e a bondade divina parece ter cessado. Aquela que seria a primeira colheita da lavoura de milho e que inauguraria uma nova fase na vida familiar longe da comunidade puritana, revela-se um tremendo fracasso, pois os milhos saem bichados e, para dar força ao momento dramático, o filho mais jovem, um bebê gordinho, desaparece quando estava sob os cuidados da filha mais velha. 


    O patriarca que, na Inglaterra, fora agricultor, não sabe caçar, por isso aqueles que estão sob os seus cuidados dependem exclusivamente dos rendimentos da lavoura para sobreviver. Há uma cena na qual o pai leva o filho homem mais velho para ajudá-lo a preparar armadilhas na floresta, eles esperam capturar algum animal. Pai e filho vão à contragosto da matriarca, pois ela, sob efeito de uma inquietação, de um afligimento, de uma angústia constante, proibira a todos de entrar na floresta. Pois fora para as entranhas daquele ermo que seu bebê fora levado -- não se sabe ao certo por quem ou pelo quê. Nessa cena há um diálogo crucial para o entendimento da mensagem do filme. Enquanto caminham lado a lado, o filho recita máximas decoradas dos preceitos religiosos que aprendera com o pai; o velho indica um princípio puritano, um tema, uma premissa e pede para que o filho o recite. O menino revela diligência não só para o trabalho duro, mas também para a observância dos preceitos da religião que aprendera com os seus pais. As sentenças são reproduzidas exemplarmente de memória pelo filho toda vez que o pai o questiona. Até que, depois de caminharem floresta adentro, ambos chegam na primeira das armadilhas armadas pelo pai na esperança de capturar algum animal pequeno, como um coelho. Mas estava fazia, não pegaram nada. 

    Enquanto constata o fracasso, ajudando o pai a rearmar a engrenagem da arapuca, o menino pára e, parecendo emergir de uma profunda reflexão, começa a tecer perguntas ao pai, questionamentos sobre a realidade da danação eterna apregoados pela religião. O garoto pergunta se será salvo, se Thomasin -- sua irmã mais velha -- será salva, se o bebê, que desaparecera, e todos os outros irmãos terão seus lugares no Paraíso. O pai, puritano exemplar e, exatamente por isso, homem atormentado pela incerteza da salvação da sua própria alma, responde não saber, afirma que ama o filho e que é necessário ter fé em Deus. Uma evasiva. A perspectiva da misericórdia divina é cinza, é tão nublada e incerta quanto a paisagem outonal apresentada no filme. A visão de mundo da família não inclui a possibilidade da redenção e perdão dos pecados senão através de um permanente estado de contrição que, ao invés de conduzir o indivíduo para um estado de alegria, de júbilo em se saber perdoado, o afunda cada vez mais numa depressão. Para eles, é um esforço sobre-humano que, na prática da religião cotidiana, pode chamar a atenção de Deus. 

    As relações familiares subsistem sob uma tensão constante entre a cobrança, a fiscalização da moral alheia, e o esforço permanente para obter o perdão divino. No entanto, nada disso é efetivamente alcançado. Não há como reprimir as paixões da carne, o ímpeto pecaminoso para praticar o mal, nem em si, nem no próximo. Toda a aparente disciplina de uma vida austera é mera hipocrisia. O perdão efetivo só é alcançado mediante o exame da consciência e a confissão, o que exige, para esta, um mediador. No entanto, não há mediadores na cosmovisão religiosa da família vivendo na fronteira da floresta; eles próprios, como indivíduos, são os seus sacerdotes, são os responsáveis pela integral observância de todos os preceitos. Cada um é fiscal de si e do próximo. Entre o casal, há, por parte da mulher, uma cobrança ainda maior, porque, crendo que a prosperidade material é sinal da Graça de Deus, ela se desespera quando percebe que a família não tem mais condições de se manter naquele lugar. A comida está escasseando e, para piorar, coisas muito estranhas acontecem. Uma atmosfera de suspeita cresce em torno de Thomasin, sua família acredita que a garota é responsável pelo desaparecimento do bebê. A hipótese de um urso ou lobo é prontamente descartada, porque não há animais desse porte nas redondezas. 

    Na mentalidade ocidental da primeira metade do século XVII estava presente a compreensão de que haviam aqueles que, afastando-se de Deus, praticavam deliberadamente o mal. Era uma prática consciente, como uma manifestação clara da vontade do indivíduo mal em servi-lo. Tais pessoas entregavam-se ao serviço do maligno, cumpriam os seus desígnios, atendiam ao seu chamado, serviam aos seus propósitos. As cidades, as vilas, os condados, as estruturas urbanas que, naquela época, eram organizadas com as tecnologias disponíveis, com os meios materiais, políticos, culturais, econômicos e religiosos vigentes, eram ameaçadas pelos servos do diabo. A possibilidade de que houvesse alguém à espreita, rogando um sortilégio contra um ente de sua família, era real e combatida com os meios aceitáveis de uma época em que governantes e governados partilhavam do mesmo corpo de princípios e valores morais e religiosos. Isto, num comparativo com a nossa realidade contemporânea, soa estranho, porque não há mais harmonia entre a fé do povo e a fé dos líderes. Basta perceber a complacência em forma de simpatia que os nossos líderes têm pelo aborto, pelo casamento homossexual e por toda sorte de contrariedades à moral do povo. Mutatis mutandis, se houvessem bruxas hoje -- yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay --, elas seriam amplamente defendidas pelos líderes políticos e, qualquer atentado contra as suas práticas religiosas, como o aborto ritualístico, seria penalizado com o rigor da lei. A linguagem favorável às bruxas, portanto, seria a do politicamente correto. 

    No livro A Verdadeira História da Inquisição, o autor, Rino Camilleri, jornalista e cientista político italiano, conta que, durante a Idade Média, muito diferentemente do que a narrativa "moderna" propaga, havia, sim, pessoas, sobretudo mulheres, que praticavam antigas religiões pagãs -- isso num contexto histórico no qual a completa cristianização da Europa ainda não se efetivara --, nas quais o sacrifício de recém-nascidos era parte integrante dos rituais macabros. Camilleri diz ainda que, se não fosse através da intervenção direta dos membros do clero local, como padres, monges e freiras, tais pessoas, sob a acusação do assassinato de bebês, seriam trucidadas, linchadas, condenadas sumariamente pelos aldeões revoltados. Fora, portanto, a intervenção direta da Igreja que, aplicando os princípios do Direito, salvara muitas dessas pagãs de uma condenação sem julgamento, injusta. Robert Eggers, em seu filme, soube retratar com uma quase perfeição a realidade do choque entre cristãos protestantes, que não estavam sob a direção do Direito Canônico da Igreja Católica, e os elementos contrários à sua fé. O grande mérito de Eggers fora o de ter desenvolvido a sua narrativa a partir de um enfoque psicológico. 

    Thomasin, a filha mais velha do casal, sobre quem recaem as acusações de bruxaria, se vê vítima de uma complexa trama na qual a constante pressão psicológica no ambiente familiar, somadas, sim, a acontecimentos estranhos, preparam o caminho para o afastamento definitivo da garota de tudo aquilo que lhe é caro. Cansada da permanente repressão, ela, numa reação desesperada, revela o quão hipócrita seu pai é, e, contra sua mãe, Thomasin vai até às últimas consequências de um confronto aniquilador. O diabo, sob a forma de um bode negro, que as crianças dos contos populares da Nova Inglaterra chamavam de "Black Phillip", obteve sucesso com o seu plano: conseguiu atrair e tomar Thomasin para si através das brechas morais de uma família escrava da hipocrisia e refém dos seus próprios pecados. Black Phillip oferece à garota uma vida futura de luxúria e de prazeres indescritíveis. É irresistível, porque, afinal, o que ela tinha antes? Uma vida miserável na qual o medo constante da condenação eterna era o seu alimento diário e a impossibilidade prática da redenção, da ascese espiritual a torturava permanentemente. A pobre família não conseguia vislumbrar nada que estivesse para além dos seus próprios pecados, confirmando, assim, as palavras de Nietzsche em "Para Além do Bem e do Mal": "Aquele que luta contra monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você". A cena final do filme é um coroamento estético deslumbrante. 


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Carpeaux sobre a Bíblia

     



    OTTO MARIA CARPEAUX fora um sábio, um erudito na mais pura acepção do termo. Seu robusto conhecimento da Literatura, com todas as suas implicações na vida do indivíduo humano, está compilado nos calhamaços da sua monumental História da Literatura Ocidental. Esta obra é uma referência permanente, não só para conhecer o desenvolvimento da Literatura na História, para observar as causas do surgimento dos diversos gêneros literários, das diversas escolas e tradições literárias mas, de quebra, conhecer também como um escritor não nativo da língua de Camões aprendeu a dominá-la ao ponto de se expressar perfeitamente no novo idioma. Reproduzo aqui um pequeno trecho no qual Carpeaux fala sobre a Bíblia, sobre a problemática das diversas traduções no contexto da Reforma Protestante. "Deus escreve certo sobre linhas tortas", é o que diz o ditado. A ruptura de diversas nações europeias contra a Igreja Católica fora determinante para as mudanças subsequentes, para as novas modalidades de governo e para as novas expressões culturais -- nem sempre benéficas. Contudo, o acesso ao texto sagrado escrito não em Latim, mas nos idiomas locais, fora determinante para a consolidação desses próprios idiomas. Diz Carpeaux:

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    "'Bíblia' não significa 'livro', mas 'livros'. Com efeito, não se trata de um livro só, ou de dois -- o Velho e o Novo Testamento --, mas de duas coleções de literatura religiosa, histórica e poética, ou antes, de duas literaturas inteiras. O Velho Testamento é tudo o que ficou da literatura do antigo povo judeu, mas bastante para constituir uma literatura. Os grandes símbolos cosmológicos e os trabalhos e viagens pré-históricas dos patriarcas do Gênese, a legislação severa e teocrática dos outros livros do Pentateuco, as histórias de bravura e crueldade, devoção e apostasia de pastores e reis orientais, nos Juízes e Reis, a visão misteriosa da história universal, no Daniel, o idílio pastoral de Rute, a paixão nacional de Ester, o ardor sensual do Cântico dos Cânticos e o pessimismo desesperado de Jó, o ceticismo do Eclesiastes e a sabedoria prática dos Provérbios, e o desespero e júbilo lírico do Saltério, os hinos de Isaías e as lamentações de Jeremias, as reivindicações sociais de Amós e as visões de Ezequiel e dos outros profetas -- nessa 'velha' Bíblia há tudo o que a gente pode sentir e pensar e exprimir. 

    O Novo Testamento também constitui uma literatura independente: não está escrito no grego de Sófocles e Platão, mas na koiné, na 'língua geral' das classes baixas da parte oriental do Império Romano, e é o único grande monumento literário daquele conglomerado de nações e das suas angústias e esperanças: os grandes discursos éticos de jesus no Evangelho segundo São Mateus, as parábolas novelísticas do Evangelho segundo São Lucas, a teologia mística do Evangelho segundo São João, as vicissitudes da primeira história eclesiástica, nos Atos dos Apóstolos, eloquência, sutileza teológica e abundância de coração, nas epístolas de São Paulo, visões monstruosas, ameaças terrificantes e hino interminável do Apocalipse -- os 'livros' compreendem tudo, do começo até o fim do mundo. 

    O conhecimento desse cosmo religioso e poético por meio das traduções abriu às nações europeias mundos históricos e lados da natureza humana dos quais a literatura greco-romana não soubera nada. A transformação de todos os conceitos emocionais e intelectuais que a Europa experimentou pelo conhecimento da Bíblia só pode ser apreciada por meio da história complicada das traduções. 

    A primeira é a tradução alemã de Lutero: o Novo Testamento, de 1522, e o Velho Testamento, de 1534. As traduções que os protestantes alemães hoje usam exibem ainda o nome do reformador nas folhas de rosto; mas diferem essencialmente do original. As sucessivas revisões do texto impuseram-se, não apenas pelos progressos da ciência filológica e exegética, mas em primeira linha pelos progressos da língua; só dificilmente se lê hoje o original. Lutero não criou a língua alemã moderna -- só a usou e aperfeiçoou com mestria incomparável -- nem a moldou definitivamente. Mas encheu-a. A língua alemã, da expressão solene ou erudita até a conversa simplíssima dos camponeses, está cheia de citações e alusões bíblicas, as mais das vezes já não reconhecidas como tais. Um alemão não pode dizer vinte palavras sem empregar uma expressão bíblica, quer dizer, luterana, e isso se aplica também aos católicos, que, durante a unificação linguística do século XVIII, adotaram a língua de Lutero. Nem o racionalismo nem o Classicismo de Weimar foram capazes de eliminar o caráter bíblico da língua alemã; um estudo especializado revelou a existência de inúmeras expressões e metáforas da Bíblia luterana nas poesias e escritos do menos cristão entre os poetas alemães, Goethe; encontram-se metáforas bíblico-luteranas, e isso em número considerável, nas pastorais dos bispos católicos, que adotaram, desse modo, a língua do livro cuja propriedade os seus predecessores puniram pela morte dos heréticos. A unidade real da nação alemã ainda é duvidosa: até onde existe, é obra da Bíblia luterana. 

    O mesmo fenômeno repetiu-se em várias outras nações europeias. A Statenbijbel, projetada pelo sínodo da Igreja calvinista holandesa, em Dordrecht, em 1619, e realizada por uma comissão de seis tradutores até 1637, consolidou definitivamente as diferenças entre a língua holandesa e a língua alemã. A presença de dois flamengos entre aqueles tradutores deu à Statenbijbel um aspecto linguístico mais geral e facilitou, três séculos mais tarde, a unificação linguística dos holandeses protestantes e dos flamengos católicos. Na Escandinávia, a Bíblia quase criou línguas, literaturas e nações. Christiern Pedersen, padre dinamarquês que traduzira a crônica nacional de Saxo Grammaticus, tornou-se, por outra tradução, o reformador da Dinamarca: a Bíblia que se chama, do nome do rei que a autorizou, Kong Christierns Bibel, e que é o primeiro monumento até hoje vivo da literatura dinamarquesa; em Pedersen, encontram-se as últimas lembranças do passado pagão, conservadas nas crônicas de Saxo, com a cristianização enfim completa. Entre os tradutores-reformadores do século XVI, a única personalidade que se pode comparar ao próprio Lutero é o sueco Olaus Petri, chanceler, reformador, historiador, poeta, que deixou a memória do caráter mais poderoso e mais duvidoso da história nacional; em todo o caso, criou aos suecos a língua e a consciência nacional. Com Pedersen e Petri entram na literatura europeia as duas nações que darão Ibsen e Strindberg. A Reforma, que significou retirada da Europa para os alemães, significou europeização para os povos nórdicos. 

    O caso mais importante é a Bíblia inglesa. Mas a história é complicada. O primeiro tradutor é o principal: William Tindale. Da sua tradução do Novo Testamento, em estilo solene e arcaico, que é um equivalente perfeito do Latim da Vulgata, sobrevivem, quase sem alteração, os salmos como parte da liturgia anglicana. Tindale era protestante; mas a Inglaterra seguiu o caminho diferente de uma Reforma parcial, pela mera vontade do rei. Em 1539, o bispo Miles Coverdale deu à nova Igreja Anglicana a Great Bible, da qual no ano seguinte, sob os auspícios do arcebispo Cranmer, foi feita uma revisão: a Cranmer Bible. A reação católica da rainha Maria Tudor interrompeu a evolução, e, nesse tempo, os protestantes ingleses, não satisfeitos com os trabalhos anteriores, criaram a Geneva Bible (1560), obra de William Whittingham; é a Bíblia dos puritanos, a Bíblia em cuja língua Cromwell arengou aos seus soldados, a Bíblia que acompanhou os Pilgrim Fathers para a América. Após a consolidação da Igreja Anglicana pela rainha Elizabeth I, o arcebispo Parker editou, em 1568, a Bishop's Bible; mas esta não satisfez, depois, o rei James I, que dirigiu a Igreja Anglicana definitivamente para a via media, meio termo entre protestantismo e catolicismo. Em 1604, o rei recomendou aos bispos nova tradução, que foi elaborada durante sete anos, por uma comissão de 47 tradutores, entre eles homens tão eruditos e santos como Andrewes. O resultado foi a tradução de 1611, chamada King James' Bible, do nome do monarca, ou Authorized version, porque o seu uso foi 'autorizado'. Que significam essas complicações históricas? 

    Em parte, são consequências da índole bem inglesa daquela Igreja. Não foi criada pela consciência de reformadores eclesiásticos nem pela vontade da nação, e sim por um ato arbitrário do rei Henrique VIII, que pretendeu conservar as instituições católicas e substituir apenas a autoridade papal pela autoridade do monarca. Não era possível, porém, afastar as influências protestantes, e o resultado, após muitas fases dolorosas de transição, foi aquela via media: um 'compromisso' bem inglês. A própria King James's Bible é, aliás, um 'compromisso' entre a Bishop's Bible e o texto de Tindale. A Authorized version é uma obra de arte extraordinária: reúne ao gênio linguístico de Tindale, só comparável ao de Lutero, a serenidade equilibrada dos bispos e eruditos da via media. O estudo da evoluções do texto, de Tindale até 1611, é sobremaneira atraente e esclarecedor quanto ao gênio da língua inglesa. Mas a Authorized version não foi elaborada, afinal, para fins literários; tratava-se da tarefa de tornar aceitável à nação inteira o texto do Verbo divino. Aquelas oscilações, durante quase um século, devem ter outro sentido, mais profundo do que os motivos políticos e filológicos indicam. A verdade é que a Authorized version nunca foi realmente 'autorizada'; venceu pelo uso, o que é também um processo bem inglês, indicando que a obra resolvera satisfatoriamente uma dificuldade que ninguém quisera admitir. A língua inglesa é resultado da fusão de duas nações: dos anglo-saxões, de língua germânica, e dos normandos, de língua francesa. O equilíbrio, alcançado em Chaucer, foi novamente ameaçado pela Renascença, em favor dos elementos latinos. Quer dizer, a europeização da literatura inglesa era capaz de separar, outra vez, a nação em duas classes de línguas sensivelmente diversas. Só a Bíblia, o livro comum de todos, podia restabelecer o equilíbrio. Na língua da Authorized version, escreveu Milton a sua poesia classicista e escreveu Bunyan a sua alegoria popular. A Authorized version terminou, na Inglaterra, a fase da Renascença de importação estrangeira; transformou-se em fundamento linguístico da literatura inglesa moderna". 


sábado, 2 de janeiro de 2021

Vulgaris: Ensaio Sobre a Imagem da Mulher.

 

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    A aristocracia romana, para se referir àquilo que lhe parecia ordinário, numa acepção de baixo, sujo, desprezível, habitualmente fazia uma associação com a plebe, com os desafortunados que não pertenciam, para agradar aos ouvidos marxistas, à classe da nobreza. Para a aristocracia pré-cristã de Roma, o vulgos, a multidão, não detinha os dotes de inteligência e de cultura necessários para comungar, num ritual orgíaco pagão, do cálice do prestígio social da alta classe. Esse estado de "vulgaridade" natural da plebe, se transformou na fonte psicológica que infundiu na linguagem dos povos vassalos de Roma uma multiplicidade de vocábulos para designar aquilo que é trivial, insignificante, fraco de feição, que, sob todos os aspectos, definitivamente não pertence à nobreza. 

    O vulgar, portanto, é, por definição, desprezível. Contudo, os séculos que precederam ao domínio latino na Europa viram surgir novas e estranhas modalidades de pensamento, novas e estranhas perspectivas da realidade; viram a decadência da primazia da objetividade pelo jogo subjetivo das palavras sem referentes na realidade. Dois milênios se passaram desde que o patricius, olhando com despeito a meretrix de "má-fé", aconselhou o seu filho a ter cuidado com o envolvimento com as mulheres do vulgos, e os perfis femininos das redes sociais. Estes exibem, para a confusão do mundo, o orgulho da sua vulgaridade. Não tenho a intenção de forçar uma afetação do crivo moral alheio, só quero registrar minhas observações do comportamento humano. Hoje, as mulheres aparentam se orgulhar da sua vulgaridade, mas, claro, é só aparência, porque, no fundo de suas consciências, o que elas sentem mesmo é o vazio da incerteza e a agitação da dúvida. 

    A queda da percepção da realidade implicada, em primeiro lugar, pela degeneração da linguagem, resultou em consequências terríveis para a vida do indivíduo. Com o edifício dos valores morais da religião reduzido a um simulacro de comportamento politicamente correto regido pelas diretrizes do Estado Moderno através dos seus instrumentos de mídia e de cultura, exemplos de eficiência no controle das massas, o que antes era condenável passou a ser amplamente louvado. Tudo sob a ilusão da luta pela liberdade. Liberdade esta, que, em primeiro lugar, apregoa a autonomia do indivíduo do "jugo" da sua religião, vocifera o imperativo da sua emancipação de toda e qualquer ética que não seja a do Estado. É evidente que esse estado de coisas produz indivíduos depressivos, doentes espiritual e psicologicamente, porque os força a assumir que não passam de meros objetos, números nas planilhas dos agentes sociais. Afinal, para que precisamos das promessas do Céu, da Eternidade, se temos paz, segurança e conforto proporcionados pelo Estado Moderno. Para que a vida eterna se temos convênio médico "gratuito"?  

    Observando os perfis femininos nas redes sociais é notório que um grande número deles é vulgar. Mas, "vulgar" em que sentido, sob qual acepção? Considero absolutamente importante esclarecer esse ponto, porque, como dito, a assimilação da realidade através da linguagem está comprometida com os mandos e desmandos ideológicos, não deste ou daquele "governo" em específico, mas de toda a estrutura do Estado Moderno. "Vulgar", no sentido mesmo de banal, ordinário, descartável, trivial, chulo, baixo, grosseiro, indigno, obsceno. Estes são alguns dos sinônimos do termo que se aplicam perfeitamente às imagens femininas das redes. A tragédia dessa realidade ganha contornos tenebrosos quando percebemos que o que perturba os ouvidos da vítima da acusação não é a palavra em si ou a imagem invocada em sua mente ou o referencial na realidade, mas a negação veemente do fato sob a justificativa de que ele simplesmente não tem importância. 

    Rebaixar o próprio corpo ao status de objeto é afirmar a narrativa do establishment anticristão e desumano. A realidade é muito mais abrangente do que os seus recortes grosseiros feitos pelas "Ciências" universitárias. O mensurável constitui senão uma parcela infinitesimal de tudo o que existe e esta percepção, a da transcendência, está presente na natureza ontológica do indivíduo humano. O homem tem em sua natureza algo que o remete à Eternidade e esse "algo" é a raiz, não só da sua religião, mas como também da ordenação da sua vida em sociedade, dos seus critérios para seguir esta ou aquela política, para se expressar desta ou daquela forma através da sua cultura. A origem da cosmovisão do homem é, portanto, transcendente. 

    De que modo isso implica no comportamento humano no âmbito da vulgaridade exibicionista? Ora, a percepção altamente equivocada de que a vulgaridade é irrelevante é só uma das consequências do relativismo moral apregoado e defendido, a todo custo, pelo Estado Moderno através, principalmente, da linguagem da mídia. Os parâmetros morais do Ocidente respaldados na sua religião caíram no exato momento em que novos parâmetros, numa síntese confusa de Hegel, Kant e Marx, foram estabelecidos. A tecnocracia do Estado Moderno, usando de meios cada vez mais sofisticados, tratou logo de liquidar a cosmovisão transcendente do homem, impondo-lhe que assumisse a realidade tal qual descrita pelo conjunto caricaturesco das "Ciências" existentes. Daí a importância da perda da fé religiosa para o Estado Moderno. 

    Ligeiro corro os olhos pelos perfis das moças na rede social, só me detendo ao encontrar um rosto mais belo ou um conjunto de curvas melhor delineadas, bem proporcionadas, sinal claro de que, como diria minha amiga Inês de Viana do Castelo, se a gaja não é lá essas coisas, pelo menos é boa fotógrafa, sabendo manejar habilmente as ferramentas de edição. Há inúmeras mulheres assim por lá. Depois de tanto ver, começo a sentir uma pontinha de tristeza e, quiçá, de compaixão. O corpo da mulher sempre me pareceu uma coisa sagrada, uma coisa que inspira cuidados especiais, que, mais do que mera admiração estética, inspira admiração e respeito pela possibilidade da vida. Por que se exibir assim? Qual o sentido, o propósito disso? Atrair a atenção dos homens? É provável que isso funcione, mas atrair a atenção para o quê? Será que não há nada na mulher além do seu corpo? É claro que há, mas séculos de manipulação da percepção da realidade pelo sistema do mundo anestesiou os corações e as mentes dos indivíduos. O outro só existe para satisfazer as carências sensoriais, os ímpetos dos sentidos mais baixos da fisiologia humana. Nada de laços de consciência mais profundos no nosso admirável mundo novo. 

    Contudo, permanece viva nas consciências a imagem da mãe, da doadora da vida, do meio gracioso através do qual tomamos nosso lugar na esfera da existência. E o símbolo máximo da perfeição da maternidade é aquela que é, a um só tempo, mãe e virgem. Esse mistério cristão é fortaleza para as mulheres de todas as épocas e lugares, é a inspiração para a manutenção da virtude. No entanto, as moças encontram na Virgem Maria a representação máxima do objeto síntese do ódio do Mvndo Moderno: a mulher que é mãe e é virgem. Daí a rebelião contra um e outro aspecto da natureza feminina; daí o louvor ao comportamento vulgar, ao ímpeto de revelar aquilo que deveria ser conservado sob um véu. 

* Messalina, 1880, óleo sobre tela de Henrique Bernardelli, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. 

domingo, 27 de dezembro de 2020

A Bíblia na Universidade

 



    Alguém disse que o cânone bíblico é a síntese de todos os gêneros literários. E é, de fato. Mutatis mutandis, todas as formas de expressão da condição humana na realidade estão presentes ali. As Sagradas Escrituras são, portanto, a fonte de inspiração que alimenta a busca do homem, ao longo dos séculos, pela linguagem, pelas fórmulas verbais precisas para exprimir a sua condição. A precisão de tais fórmulas, na verdade, reflete a disposição do espírito do homem ocidental. Sua cultura, edificada sobre os fundamentos da religião judaica e, sobretudo, da religião cristã no período medieval, está, portanto, impregnada de elementos éticos, morais e psicológicos expressos primeiro naquelas fórmulas verbais presentes no Livro Sagrado. Daí a importância permanente dos estudos da Bíblia no âmbito da pesquisa histórica, cultual e, principalmente, literária do Ocidente: ela sintetiza a dinâmica humana em todas as esferas de atuação possíveis e imagináveis. Seu repertório de tipos humanos formou a consciência do homem ocidental. 

    Dito isto, é imprescindível os estudos sistemáticos do Cânone Sagrado no âmbito acadêmico não religioso. Digo não religioso, porque, no contexto religioso, os estudos das Escrituras seguem, tradicionalmente, um padrão de excelência só dispensado aos vocacionados ao sacerdócio ou à vida religiosa. Tal excelência, aliás, fora o fundamento que, no auge da civilização cristã, no medievo, lançou as bases para a criação das primeiras universidades na Europa. No entanto, fora do âmbito religioso, o interesse pelo Livro Sagrado foi, em função do surgimento de correntes ideológicas antipáticas à religião cristã no espaço acadêmico, perdendo força. Esta antipatia, aliás, oriunda da universidade, impregnou-se nas esferas da cultura e da política, implicando numa mudança radical da cosmovisão do homem ocidental. 

    Contudo, a antipatia sistemática à cultura cristã na universidade não é justificativa para a exclusão, praticamente completa, dos estudos da Literatura Sagrada. Tal exclusão é, isto sim, um fator de alienação. Os elementos que compõem o ambiente acadêmico contemporâneo não podem renegar a herança intelectual que receberam dos cristãos sem uma auto alienação. Honestidade intelectual, responsabilidade, senso do dever e senso das proporções são alguns dos principais critérios da investigação acadêmica herdados dos medievais. Contudo, o principal deles, a busca pela verdade, sucumbiu vítima das conspirações ideológicas dos novos acadêmicos. 

    É dentro dos limites da pesquisa literária, portanto, que reside a importância máxima da manutenção da presença da Bíblia como tema nas grades curriculares dos cursos de Letras atualmente. A literatura é o registro das experiências humanas possíveis e imagináveis e o cânone bíblico é, por sua vez, a obra de literatura por excelência. Entender o desenvolvimento da literatura no Ocidente, o surgimento dos diversos gêneros literários, das novas escolas e correntes de pensamento nos limites da literatura, implica assimilar os temas apresentados nos diversos livros que compõem o Cânone Sagrado. Sem essa chave de interpretação da expressão da condição humana nas vicissitudes da realidade, é impossível observar com clareza os mecanismos responsáveis pelas mudanças culturais e psicológicas sofridas pelos ocidentais ao longo de, pelo menos, dois mil anos de sua existência. É, portanto, desonesto não estudar a Bíblia na universidade e, mais do que isso, é perigoso submetê-la aos crivos sujos das interpretações ideológicas, pois eles recortam a literatura da realidade e forçam uma análise altamente subjetiva da condição humana, desumanizando-a. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Registro de uma manhã de Natal

     



    Caminhar por São Paulo no dia de Natal não é só um convite para o estranhamento da quebra do ritmo frenético da cidade, é também um convite para uma observação mais apurada dos efeitos da passagem do tempo. O que é o Natal senão um marco permanente no transcurso do tempo? E aqui está um registro não planejado, feito por acaso, da minha caminhada desta manhã. A fotografia acima, que está em domínio público, fora batida por Werner Haberkorn nos anos de 1940. O registro é do prédio do Instituto Biológico, que teve sua construção concluída, em estilo art-decó, em 1945. Haberkorn fora engenheiro, fotógrafo e empresário alemão radicado no Brasil nos anos de 1930. A Fotolabor, empresa pioneira na fabricação e comercialização de cartões-postais no Brasil, fora um empreendimento idealizado e consolidado por ele em 1940. O repertório fotográfico do estúdio de Werner Haberkorn é um verdadeiro tesouro da memória paulistana, porque contém registros das diversas transformações sofridas pela cidade ao longo das décadas de 1940 e 1950. Deixei o local do meu estágio, nas proximidades do Instituto, com a sensação da evidente anormalidade: era a calmaria, o silêncio incomum só violado pelo canto dos pássaros que se amontoavam nas árvores da Av. Dr. Dante Pazzanese. Antes de começar a escalar a Conselheiro Rodrigues Alves para acessar o metrô, porém, lembrei do velho prédio do Instituto e das muitas ocasiões em que desejei fotografá-lo, mas, intimidado pelo intenso movimento do local, pelas pessoas, pelos carros, pelas motocicletas nunca tive coragem. A quietude desta manhã de Natal fora o convite irrecusável para bater a foto abaixo.




domingo, 20 de dezembro de 2020

Grande "reset" mundial



    

    A origem etimológica do termo entre aspas é "refazer", "começar de novo", "restaurar". O verbo resetar, portanto, designa a condição na qual existe a necessidade de, sob critérios específicos, dar nova forma a alguma coisa ou, mais precisamente, trazer tal coisa à sua forma original. No entanto, no âmbito de um reset mundial, isto é, de uma nova forma do sistema do mundo, o intento não é restaurar as condições existenciais do indivíduo na sociedade, mas reforçar o panorama de supressão da sua liberdade já entrevisto no contexto atual. Ao analisar a vivência da sociedade através de um prisma histórico, é possível perceber uma disparidade interessante: o progresso material da sociedade não acompanha a afirmação da liberdade do indivíduo. Na verdade, acontece exatamente o contrário. 

    Na Idade Média, no contexto do Feudalismo, por exemplo, os meios efetivos através dos quais o indivíduo poderia afirmar a sua liberdade, exigir a validação dos seus direitos em face também dos direitos do senhor feudal, eram, comparados ao contexto atual, imensamente maiores. O senhor feudal dispunha de algumas dezenas de soldados que, não obstante, eram camponeses que cultivavam suas porções de terra dentro dos limites do próprio território feudal e, portanto, se defendessem o feudo, defenderiam seu meio de subsistência também, mas, contra os membros deste mesmo feudo, o nobre não dispunha de meios efetivos de coerção. Num contraste trágico, hoje, os indivíduos que vivem como servos das "glebas" multinacionais nos grandes centros urbanos, são facilmente doutrinados pelo panorama dos valores dos novos e imensamente poderosos senhores feudais. 

    Os tais senhores feudais contemporâneos detêm, na verdade, um poder que está muito para além dos limites da imaginação dos seus pares do passado. Na realidade da condição humana vivenciada entre os séculos V e XIII, na Alta Idade Média, ao contrário do que a propaganda revolucionária apregoa desde, pelo menos, o século XVIII, a experiência da efetiva liberdade era uma realidade. Se um nobre decidisse agir com tirania, infringindo o contrato de terras estabelecido entre si e os camponeses, como faria para assegurar sua autoridade? Disporia seus soldados contra os membros do feudo? Como, se estes mesmos eram os membros do feudo? Se esta situação, num momento de crise, ganhasse forma na realidade, só uma força resistiria: a rebelião das massas. Sem os meios tecnológicos de coerção efetiva, o senhor feudal se veria num embate tête-à-tête contra o seu povo encolerizado. Seriam espadas e escudos contra foices, machados, paus e pedras. 

    Hoje, com a abundância de novos e cada vez mais sofisticados meios de controle das massas, é fácil perceber que aqueles que exercem o poder, o fazem desde os píncaros de uma tecnocracia tirana. A experiência das redes sociais, as funções cada vez mais invasivas dos aplicativos de celular, o monitoramento constante das pessoas nas zonas urbanas, o enviesamento dos noticiários da grande mídia são alguns exemplos do poder dos senhores feudais da atualidade. Estes, aliás, se arrogam o direito, inclusive, de decidir se um ser humano deve ou não viver: a campanha global pró-aborto é a prática, forçada, do corpo de valores e crenças desses senhores. O desejo da morte de bebês no ventre de suas mães é mais uma mostra da disparidade, da desarmonia entre os valores da sociedade. 

    Na Idade Média e, mais precisamente, antes do advento do Estado Moderno, o mesmo corpo de valores, crenças e doutrinas religiosas observados pelos governantes era também observado pelos membros do povo. O conflito de cosmovisões era, no geral, inexistente e, quando surgia num contexto restrito, permanecia aí, fora do campo de visão dos elementos protagonistas da sociedade. Hoje, não mais. A religião dos governantes se tornou esotérica para o povo, implicando, portanto, no surgimento de uma série de conflitos de valores. Basta constatar a simpatia dos líderes atuais pelo aborto, pela liberação das drogas e pela união homossexual, por exemplo. A sociedade atual caminha para um desfecho no qual o enredo oficial será a narrativa dos detentores do poder máximo. Um contexto no qual a liberdade do indivíduo como a conhecemos não mais existirá e tudo o que será seu por direito será o dever de pedir permissão. 


sábado, 19 de dezembro de 2020

Estrela de Bethlehem escaldante

     


    Cá nas bandas do Ocidente, o estereótipo do Natal é a representação da casinha perdida na neve, com sua chaminé esfumaçada e esquilos, serelepes, com suas bochechas empanturradas de nozes, correndo pelos telhados de ardósia. A realidade do meu Natal, no entanto, é ligeiramente diferente: calor, tórrido calor. De maneira que, daquele estereótipo, tudo o que permanece é a atmosfera da lareira, da lenha em brasa, do tição flamejante. Aqui em São Paulo, no trópico de Capricórnio, a atmosfera natalina se mantém, incólume, às voltas dos 30 graus Celsius. Já no Rio de Janeiro, capital espiritual do Brasil, os termômetros celebram o nascimento do Redentor com maior efusividade. Coitados. 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Comentários sobre "Machado de Assis -- Estudo crítico e biográfico", de Lúcia Miguel Pereira

    

    Por recomendação do professor Rodrigo Gurgel, iniciei a leitura da biografia de Machado de Assis escrita pela Lúcia Miguel Pereira, "Machado de Assis: Estudo crítico e biográfico". Tenho em mãos a 6º edição, editada pelo Senado Federal para a coleção "Edições do Senado Federal"-- Vol. 236. Já li algumas pequenas biografias e ensaios biográficos sobre o bruxo do Cosme Velho. A última, do ensaísta Gilberto de Mello Kujawski, colaborador do Jornal da Tarde e d'O Estado de São Paulo, fora uma grata surpresa, porque no seu livro, "Machado de Assis por dentro" -- editora Migalhas, 2011 --, o autor enfrenta o problema da politização do literato carioca. Senti como se ele fizesse isso como quem suspirasse, aliviado por tirar um engasgo da garganta, por protestar finalmente contra o injusto enviesamento ideológico adversário do nosso maior escritor. A politização dificulta a compreensão, porque a submete a um crivo de análise parcial, incompleto, falho. Mas agora, voltando à Lúcia Miguel Pereira, é fácil perceber o porquê da consagração desta biografia como referência para os estudos da vida e da obra do ilustre escritor carioca: a Lúcia teve acesso às fontes primárias decisivas para o delineamento do perfil do seu biografado, conversou com contemporâneos do escritor -- a primeira edição do seu livro data de 1936 --, mas, acredito, o seu trunfo foram a admiração e o amor sinceros para com o romancista. Antes de empreender seus esforços para escrever sobre o Machado, Lúcia fora uma leitora atenta, admirada e devotada do escritor, o que a levou a escrever não só com lucidez e profundidade, mas com responsabilidade também; com a consciência clara do peso de transmitir, de comunicar as experiências de suas leituras. Lúcia contava trinta e cinco anos quando publicou seu livro. 


    Na sua biografia sobre Machado de Assis, a Lúcia Miguel Pereira diz que, quando jovem, Machado já demonstrava uma virtude admirável: nutria admiração sincera pelo talento dos seus amigos, jovens escritores que, assim como ele, guardavam a esperança de serem lidos e reconhecidos pelos seus trabalhos. Por volta dos vinte anos, em 1860, Machado, que então vivia com a madrasta, Maria Inês, nas cercanias do Morro do Livramento, no subúrbio da Côrte, depois de abandonar a função de tipógrafo nas oficinas do seu amigo, Paula Brito, por influência de outro amigo, Quintino Bocaiúva -- o ferrenho republicano --, ingressou no Diário do Rio. Essa nova fase da sua vida resultou no amadurecimento do seu estilo literário, porque o jovem Machado, que antes só contribuía com periódicos estritamente literários, agora se via obrigado a lidar com o grande público, a lidar com a política da Côrte, a opinar sobre as questões mais urgentes do seu tempo. Contudo, para além de favorecer o desenvolvimento do seu talento, o novo emprego, claro, possibilitou ao jovem deixar o subúrbio e se transferir para o centro fervilhante da capital do Império. Nesse momento de sua vida, Machado de Assis se viu próximo de novos e promissores talentos como, por exemplo, Cézar Muzzio, Ernesto Cibrão, Sizenando Nabuco e o próprio Quintino Bocaiúva. Manuel Antônio de Almeida, Casimiro de Abreu, Macedo Júnior e seu antigo empregador, Paula Brito, estavam mortos ou morreriam em breve. 

    As letras nacionais testemunhavam o nascimento de uma nova geração. Nessa nova fase de sua vida, quando, finalmente, parecia alcançar uma melhoria significativa e experimentar um início de reconhecimento, Joaquim Maria revela um aspecto surpreendente de seu caráter: sua imensa generosidade. Ele não inveja os seus pares, antes os estima, os admira e, principalmente, os ajuda também. A pobreza, a mulatice -- que, naquele tempo, tinha um peso real para a superação das classes --, a gagueira, a epilepsia e, em suma, seus padecimentos da vida não foram, jamais, uma justificativa para que nele se desenvolvesse uma personalidade rancorosa, ressentida ou invejosa. Machado de Assis, apesar de ser acreditado ateu por alguns, professava exemplarmente o Mandamento do amor ao próximo. Isto, somado ao seu caráter introvertido e observador, o coroou com o poder de compreensão da condição humana que o tornou digno do título de nosso maior escritor. 


    Por volta dos quarenta anos, em 1878, Machado de Assis, que sofria desde sempre de epilepsia, começou também a sentir os sintomas de uma afecção intestinal, provocada pelo excesso de trabalho. Decidiu, então, suspender suas colaborações literárias para os jornais nos quais escrevia e, com a licença do seu cargo público na Secretaria da Agricultura, partiu, com sua esposa, Carolina, para Nova Friburgo, na serra fluminense. O casal lá permaneceu por uma estadia de três meses que, com os restabelecimento do doente, se estendeu por mais três. Lúcia Miguel Pereira diz que essa curta fase da vida do escritor fora decisiva para o seu definitivo amadurecimento. Machado de Assis, carioca nato, nunca saíra da cidade do Rio até aquele momento, nunca experimentara a liberdade de se encontrar fora do ambiente urbano, longe dos amigos, dos cafés, dos clubes literários, das ruas empoeiradas por onde circulavam os bondes puxados por burros o onde se ouviam os pregões dos vendedores ambulantes. Esse momento de descanso -- o primeiro de sua vida -- permitiu que o escritor mergulhasse em reflexões novas sobre a vida e, principalmente, sobre a morte. Quando desceu da serra, o escritor estava mudado para sempre, alcançara, finalmente, o domínio pleno da sua linguagem, dos seus meios de expressão. Sua principal obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas, reflexo das suas mais profundas meditações, nasceu pouco depois de seu regresso à vida urbana. 


    A sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras fora realizada no dia 20 de junho de 1897, Machado de Assis, que passou a vida alimentando o sonho de ver as letras nacionais assim congregadas em uma instituição promotora, estava realizado. Contudo, a vida é uma velha avarenta: quando dá uma alegria, cobra logo com usura os juros da dor. A Lúcia diz que, em novembro daquele mesmo ano, as Diretorias-Gerais de Viação e Obras Públicas foram reunidas em uma só. Machado, que sempre fora exemplar servidor público, testemunhou com frieza -- e talvez com tristeza -- o golpe que instaurou a República. No ano do golpe, 1889, fora nomeado pela Princesa Isabel diretor da Diretoria-Geral do Comércio, cargo que mudou de nome com a chegada dos republicanos ao poder. O novo governo, já esbanjando suas convicções positivistas, julgou que o cargo deveria ser exercido por um técnico, por isso, considerou o velho Machado de Assis, adido, isto é, incapaz. Seu amigo, Mário de Alencar, exprimiu bem o espírito da época: "A lei era um embaraço; mas as leis fazem-na os homens para as ocasiões, quase sempre com pretexto de servirem aos outros, e com o fim secreto do proveito próprio. E assim foi que com a lei tiraram-lhe o que a lei lhe garantia!". Mas, o escritor não permaneceu injustiçado por muito tempo. Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência da República e, na chefia do Ministério da Viação, estava Lauro Müller. Um dos primeiros atos do novo governo foi chamar o bruxo do Cosme Velho de volta à atividade de diretor-geral de Contabilidade do Ministério da Viação, cargo que exerceria até morrer. Foi um susto pelo qual passou o escritor nessa última fase de sua vida. 


    Em certo momento da vida, quando o escritor já gozava de alguma fama entre os poucos letrados da Côrte, ele protagonizou uma cena burlesca, mas que revelara muito da sua personalidade: enquanto revisor de provas para um certo amigo editor, Machado de Assis, ao perceber que deixara passar um erro, ajoelhou-se perante o editor, implorando para que a publicação fosse recolhida imediatamente! Ele chegou até mesmo a dizer que estava disposto a tirar do próprio bolso o montante referente às edições já vendidas. O editor ficou sem palavras e, talvez por um breve momento, sem reações também. Pudera. Machado, que sempre fora um tímido de pantufas, estava ali, de joelhos, implorando para ter a chance de corrigir um erro de Português. O editor, tocado pela sincera demonstração de amor do escritor pelo seu ofício, publicou uma errata. Esse episódio ilustra de modo perfeito o quanto Machado de Assis amava o que fazia. Só mesmo um escritor que amasse o seu ofício se colocaria assim, de joelhos, para implorar a oportunidade de se retratar com o leitor por um simples e inocente erro tipográfico -- de "digitação". Essa atitude, em outros escritores, talvez parecesse mera afetação, mas não com o Machado. Sua obra, sobretudo o que ele produziu depois de 1879, depois de Brás Cubas, é um conjunto de provas definitivas que atestam seu talento e amor pelas letras. 


    Nos capítulos finais, a autora conta, seguindo a previsibilidade do gênero literário das Biografias, a morte do escritor. No entanto, como se trata de Machado de Assis, o episódio de sua morte não poderia acontecer sem a interferência de algum elemento estranho, incomum, algo que fugisse da regra do pranto e da reflexão sobre o termo da vida. Não. Aconteceu que, estando o escritor em agonia, tendo ao seu lado uma verdadeira plêiade de amigos ilustres literatos e também de pessoas comuns, que cuidavam dele com o mesmo carinho com que cuidaram de Carolina, falecida há quatro anos, Machado recebeu uma visita curiosa: a do fundador do Partido Comunista Brasileiro. Sim. Em uma noite qualquer de 1908, um rapaz de dezessete anos que atendia pelo esquisito nome de Astrojildo Pereira, bateu à porta da casa do Cosme Velho e, passando pelos presentes ilustres, entrou no quarto onde Machado de Assis começava a agonizar. Beijou-lhe a mão e o abraçou. Se o escritor, que já começava a sentir a leveza do outro mundo, pudesse se restabelecer naquele mesmo momento e, sentado à escrivaninha, voltar para o seu ofício, poderia, imagino, escrever poemas em sincera homenagem ao moleque todo carinhoso que decidiu fazer-se presente na sua hora derradeira. 

    As testemunhas do afeto do jovem pelo velho literato foram ninguém menos que Euclides da Cunha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia, Graça Aranha, Coelho Neto e Rodrigo Otávio; além, é claro, das famílias que prestavam auxílio ao moribundo. O moleque Astrojildo, claro, ainda era um adolescente, estava ali como admirador do seu escritor, do seu ídolo. As leituras da obra machadiana poderiam ter despertado o rapaz para um mundo novo, poderiam tê-lo apresentado uma visão mais profunda da condição humana. Não havia nada ali que pudesse dar pistas dos descaminhos da consciência que o rapaz tomaria anos depois quando, em 1922, aos trinta e dois anos, fundara o PCB. É interessante notar como, mesmo aquelas pessoas inteligentes e, aparentemente, enviesadas para um bom caminho, para uma direção na qual as coisas tendem a se mostrar mais nítidas, mais sólidas e presentes, podem tomar rumos inesperados. Por que as pessoas se tornam estúpidas? Por que a inteligência se corrompe? Por que o gênio pode servir ao mal? Essas são indagações que devem ser feitas precisamente para quem, levado pela perda do sentido da vida, como os personagens do Machado, se permitem o mal. Astrojildo, que não estaria ali, no leito de morte do escritor, se não lhe fosse um leitor devotado, fora, com tão pouca idade, impregnado pela frieza do ceticismo e da falta de sentido para a vida presente na obra do Machado. O estilo, irônico e pessimista, deve ter servido de preparo para o materialismo, o cientificismo e o pragmatismo das ideologias que corromperam sua mente. 

    Mas, em Machado de Assis, os personagens não se entregam ao mal integralmente, entregam-se à dúvida; a uma dúvida permanente sobre o sentido da vida, sobre pelo que vale a pena viver e morrer. Na verdade, porque buscam sempre por uma certeza, ou, pelo menos, porque aparentam buscar por respostas concretas para as angústias da existência, tendem para a única certeza objetiva: a Morte. Daí o pessimismo machadiano. Astrojildo que, antes de se lançar em defesa do Comunismo, fora anarquista, deve ter encontrado na obra do Machado o principal elemento de que precisava para compor a filosofia da sua ação política: a vida não tem sentido. Desse ponto até a completa negação da transcendência na realidade, até à fé cega no Estado e na crença de que um sistema político tecnicista ofereceria a solução para todos os problemas da humanidade fora um pulo. Um pulo de moleque. O que Machado de Assis diria se pudesse antever que aquele rapaz que tão afetuosamente beijava-lhe as mãos se tornaria o fundador, no Brasil, do movimento político mais desumano já registrado na História? O Machado, tão observador, tão criterioso, tão atento aos movimentos das criaturas à sua volta seria capaz de conceber os horrores do Comunismo? Seria capaz de depositar a fé que ele, durante toda a vida, pareceu negar a Deus, num sistema rígido de controle e estímulo do comportamento humano? Não. Machado de Assis compreendeu a angústia da condição humana, experimentou a liberdade criadora e, por isso, não cairia nesse engano. O bruxo do Cosme Velho, apesar de contraditório, antes como indivíduo humano do que como escritor, fora um convicto praticante do maior dos Mandamentos. 


    Por fim, temos as palavras sinceras do seu maior crítico, Sílvio Romero que, guardadas as devidas proporções, esteve para Machado de Assis o que Robert Hooke esteve para Isaac Newton ou, mais próximo da Arte, o que Antônio Salieri esteve para Wolfgang Amadeus Mozart.

    "Tome Machado de Assis um motivo, um assunto entre as lendas eslavas", disse Sílvio Romero que não pode ser acusado de complacência com o autor do Memorial de Ayres, "há de tratá-lo sempre como brasileiro, quero dizer, com aquela maneira de sentir e pensar, aquela visão interna das coisas, aquele tic, aquele sestro especial, se assim devo me expressar, que são o modo de representação espiritual da inteligência brasileira...

    "Seus romances, seus contos, suas comédias encerram vários tipos brasileiros, genuinamente brasileiros, e ele não ficou, ao jeito de muitos dos nossos, na decoração exterior do quadro; mais penetrante do que qualquer desses, foi além, e chegou até a criação de verdadeiros tipos sociais e psicológicos, que são nossos, em carne e osso, e essas são as criações fundamentais de uma literatura". Sílvio Romero. 












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